sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Amor Filial

Comentários meus sobre a virtude do Amor Filial.

Amor Filial

“Entre as sete grandes luzes sagradas da Ordem DeMolay, existe uma que primazia nesta constelação: uma virtude que se baseia na amizade, na confiança e no respeito, e mesmo assim, ainda é algo encarado como uma lenda, a lenda do amor sem a razão de existir, a lenda do Ágape.”

Cerimônia do Abraço

Palavras do Orador.

Um dia havemos de estar sentados no mesmo lugar de nossos pais, passaremos pelas mesmas angústias e alegrias, pelas dores e alívios pelas quais passaram.

O DeMolay consciente e praticante disso tem em sua mente, inculcada a virtude do Amor Filial. Saber que um dia nos colocaremos na posição de pais é uma verdade que apesar de não provável é de se esperar. Devemos inicialmente, ao refletir sobre o Amor Filial, o quanto nossos pais podem ser, e o quanto tem sido perseverantes diante das adversidades que o mundo lhes impõe, o quanto lutam para terem cada vez mais a confiança de seus filhos e para garantir um futuro digno e confortável para nós.

A virtude do Amor Filial, a mais básica e a mais sábia, porém a que muitas vezes seria a mais ignorada ao tratarmos do sentimento entre os pais e os filhos.

Das virtudes, dizemos que esta é a que surge diante de nós antes mesmo de sermos admitidos no mundo terreno e que permanece conosco até mesmo depois de alcançarmos o ocaso da vida. Ainda que julguemos a mais pétrea de todas, temos de admitir que a grande carga colocada sobre esta virtude seria o que a torna mais fácil de não seguir, desanimando aqueles que se enfraquecem ao se entregar ao desestímulo das dificuldades em lidar com as adversidades familiares, de facilitar com que erremos sem muitas vezes perceber que contradizemo-nos em nossas palavras e ações para com nossos pais.

Em nossa jornada como DeMolays aprendemos que a obediência, a caridade, a boa vontade e o altruísmo para com nossos familiares, mais especificamente para com nossos pais devem ser presentes o tempo todo, e que o reflexo da prática desta virtude deva ser cada vez maior entre nós. É em nossa ansiedade para atingirmos nossa maioridade (ainda que de forma abstrata) que muitas vezes nos leva a falha diante de nossos pais e familiares.

Um DeMolay deve procurar, através da humildade, a redenção diante de seus pais pela correção de seus erros e faltas, procurando como sempre dizemos, ser um melhor filho e retribuindo todo o amor e os cuidados que seus pais lhe dedicam.

A base do amor é a generosidade, é ela que nos faz tolerantes e eximidos do egoísmo, para que enquanto virtude. Os antigos filósofos chamavam o amor entre pais e filhos de amor de ágape.

O ágape é um amor criador. O amor divino não se dirige ao que já é em si digno de amor; ao contrário, ele toma como objeto o que não tem nenhum valor em si e lhe dá um valor. A ágape nada tem em comum com o amor que se funda na constatação do valor do objeto a que se dirige [como faz erôs, mas como também faz philia, quase sempre]. A ágape não constata valores, cria-os. Ele ama e, com isso, confere valor. O homem amado por Deus não tem nenhum valor em si; o que lhe dá um valor é o fato de Deus amá-lo. A ágape é um princípio criador de valor. [1]

Assim definimos bem o amor filial, é um amor que mesmo não sendo merecido, existe. E existe não só porque nossos pais tem o suposto “dever” de nos amar, mas porque se é criado um amor em torno disso, e como a filosofia diz, o ágape é o princípio criador deste amor. É este princípio que conferencia a centelha de vida que nos mantém ligados aos nossos pais.

Não nos é difícil acontecer de presenciarmos episódios, mesmo que de vidas alheias, onde filhos são tidos como maltratados pelos pais raivosos e digamos às vezes, possessivos com as atitudes de seus filhos, onde estes acabam por puni-los de forma muitas vezes violenta. Mas é aí que entra o princípio de ágape, onde o amor, embora não muito fácil de ser visualizado por nós em certos momentos, existe, mesmo diante a punição, da raiva e da possessividade de nossos pais. É inegável que o valor do amor que parte de nossos pais seja inescrupuloso e indagável, este amor não morre, sempre nos protegerão, sempre nos apoiarão e sempre nos amarão incondicionalmente, mas cada um à sua maneira. Mas falar da maneira como somos tratados ou tratamos aos outros é assunto da tolerância e da cortesia, que não nos cabe falar agora, mesmo que indispensáveis e inerentes ao amor filial.

Como dito, diante da inépcia, ou seja, as ações incoerentes, dos filhos, os pais se mostram impulsivos, elevam a voz, indignam-se – em suma, caem na mesma tendência de descaso que o filho, muitas vezes inconscientemente cai.

Diante dessas situações o exercício do amor filial vem pela tolerância, é certo que acima, havia dito não falar da tolerância enquanto falo de Amor Filial, mas nos é necessário entender que as virtudes são um conjunto e devem umas reforçar às outras. Sendo assim, nos é válido salientar que precisamos tomar medidas que deixem com que nossos pais se tornem mais hábeis e maleáveis emocionalmente, diante de erros que cometemos.

É claro que a melhor medida para que exercitemos nosso amor filial é como dito acima, a obediência, a amabilidade e a consideração. Mas nem sempre acertamos enquanto filhos. A principal lição que devemos exercitar diante de nossos próprios erros é a da consciência e da auto-análise. Somente assim poderemos tomar medidas que nos façam filhos melhores diante de pais indignados com os nossos equívocos.

Para que tomemos em consideração a relevância de nossos erros diante da empatia e humor de nossos pais, é necessário nos conhecer e termos a convicção plena de nossos deveres enquanto filhos, mesmo que seja duro e que nos tome tempo. Diria isso para todos os aspectos de nossas vidas nos quais não pretendemos nos dar ao luxo de errar.

Comece lembrando de todas as virtudes que nos seguem, lembre-se do seu dever enquanto DeMolay, das promessas feitas à Deus e aos seus irmãos durante sua iniciação. Lembre-se que precisará sempre de seus pais, mesmo que somente por carência de afeto. É claro que não podemos deixar de lado o fato de existirem famílias com problemas peculiares, e que cada família tem seus problemas em particular. O importante é termos a consciência não só de nós mesmos, como já disse, mas termos consciência também de nossa situação familiar.

Nossas atitudes são moldadas pelo meio em que vivemos e pelas pessoas com quem convivemos, a Ordem DeMolay está para nos ajudar neste molde. A lição do amor filial é uma lição de aprendizado eterno e de perfeição inalcançável. Por mais que tentemos não conseguiremos ser filhos perfeitos, mas se não tentarmos não poderemos nos denominar assim.

Lembremos que o amor de nossos pais prevalece em qualquer circunstância, e que o nosso amor por eles deve ser recíproco e melhorado se possível, sempre de maneira a retribuir até mesmo oque ainda não fizeram por nós.

Nossa fraternidade homenageia nossas mães (na cerimônia das flores) como símbolo máximo do Amor. Da mesma forma (na cerimônia do abraço) reverenciamos nossos Pais.[2]

Demo-nos ao respeito para com nossos pais, já que é provável que um dia, nos dedicaremos a tão honroso e sagrado ofício, que diante do Pai Celestial é uma dádiva e um presente para o homem e símbolo do sucesso obtido em sua vida como ser humano.



[1] André Comte-Sponville; cit. Nygren. Pequeno Tratado das Grandes Virtudes. Martins Fontes. 1999.

[2] Cerimônia do Abraço, Cerimônias Especiais, SCODRFB. 2006.


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